Histórico do prédio
Subsolo
Térreo
1º Pavimento
 
   
 

Em 1.500, a descoberta ou conquista do Brasil foi avalizada pelo sinal da Cruz. A Caravela de Cabral chegou às novas terras carregando em meio à sua bagagem um oratório com a imagem de Nossa Senhora da Esperança, iniciando uma tradição que perpetua o contato do homem com a divindade pelos séculos seguintes.

De origem medieval, esses objetos de fé ganham formas amoldadas às necessidades dos fieis. Muitas vezes produzidos pelas mãos incultas dos nativos ganham formas e tipos inusitados, movimentando as forças da vida nova numa sociedade em formação. Ora utilizados na sua dimensão de pequenos armários de guarda dos santos patronos de cada fiel, portanto individualizados, ora instalados em locais apropriados ao fluxo de um número maior de pessoas - as ermidas - ou ocupando o espaço essencialmente privado e doméstico, o oratório se torna parceiro e cúmplice dessa ciranda encantada do passado brasileiro.

O oratório cumpre também o papel de delimitar a função social da mulher, que devia encontrar na representação religiosa a sua própria imagem de resignação, submissão aos desígnios divinos, contemplação e obediência à vontade dos maiores, do homem destinado à conquista e ao mando, da esposa, mãe e filha, sempre ajoelhadas, confiando e implorando a Deus e a seu santo de devoção que os seus senhores resolvessem bem os seus propósitos, por eles e pelo bem estar do mundo.

Em Minas Gerais, o oratório simboliza ainda a gratificação da fé, pelas andanças perigosas dos aventureiros, acompanhando-os com a sua benção e indispensável patrocínio. O certo é que esses objetos de fé, hoje escassos, ocuparam as íngremes montanhas, tornearam rios, produziram vilas, cidades, aglomeraram comunidades em torno da espiritualidade triunfante da Contra-Reforma.

Esses trabalhos, infelizmente anônimos, conforme o costume da época não eram assinados sendo, quase na sua totalidade, de difícil identificação autoral. Artesãos, artistas e artífices de toda espécie, incluindo a mão afro-brasileira deixaram, no entanto, a marca de uma criatividade tipicamente tropicalizada, onde a apropriação da estética barroca era amoldada às culturas e percepções populares.

A inventividade das primeiras povoações da Terra de Santa Cruz, está presente, portanto, nas adaptações feitas à sua forma primitiva de pequena capela reduzida, de resguardo e esconderijo de santos, de altar móvel percorrendo estradas e picadas difíceis e ermas. Ficaria à espera de um sacerdote, que diante do oratório celebrasse missas, realizasse casamentos e batizasse os inocentes. Ou seria introduzido nas casas das famílias, tornando-se guardião dos bens recebidos ou dos costumes, da riqueza e da virtude.

Nos diversos momentos de aflição ou gratidão, o oratório seria o espaço ideal para um contato pessoal, de acentuado caráter afetivo e da maior intimidade com a simbologia católica, tão genuinamente nossos. Os santos guardados ou entronizados em seus nichos estavam, assim, à mão para proteger, ouvir segredos e testemunhar a fé de homens, mulheres e crianças.

Com a inauguração do "Museu do Oratório", montado na antiga casa do Noviciado do Carmo, no magnífico cenário urbano de Ouro Preto, trazemos ao público uma amostragem da fé brasileira, e especialmente mineira, inserida no cotidiano dos anos setecentos e oitocentos, numa tentativa de amoldar a beleza estética aos usos e costumes da época da formação de uma sociedade tipicamente religiosa. Assim temos, mais que a exposição dos objetos da fé que coleciono desde menina, uma mostra de caráter antropológico e afetivo, com cenas típicas onde o uso do oratório reflete uma dada mentalidade.

A montagem do Museu do Oratório só foi possível, graças à colaboração da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, através da figura do eminente sacerdote Pe. Simões, que desde de nossa idéia embrionária se entusiasmou com o projeto, participando de todas as suas etapas e cedendo o espaço do antigo Noviciado do Carmo para a sua efetivação.

Todo o projeto foi realizado através do esforço conjunto de técnicos e pesquisadores do maior gabarito, incluindo a presença de historiadores, restauradores, arquitetos, engenheiros e museógrafos que, por cerca de 3 anos, se empenham na tarefa de me auxiliar na concretização de um sonho - o de dividir com o público uma coleção que nasceu do meu desejo em recolher e salvaguardar os estilhaços do formidável patrimônio domiciliar e artístico brasileiro.

Angela Gutierrez



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  Museu do Oratório  Adro da Igreja do Carmo, 28 - Centro     Ouro Preto MG
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